Butô: A Dança interior e visceral
Uma jornada pelo corpo em crise, quebrando as convenções da beleza para encontrar a expressão na escuridão.
O que é o Butô?
Butô (舞踏, Butō) é uma forma radical de dança-teatro que emergiu no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, um país que lidava com a devastação da bomba atômica e uma profunda crise de identidade cultural. Criado por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, o Butô, originalmente chamado de “Ankoku Butō” (暗黒舞踏, a dança das trevas), foi uma rebelião contra a estética ocidental e as formas tradicionais japonesas, como o Noh e o Kabuki. Ele busca sua expressão não na beleza formal, mas no “corpo em crise”: um corpo vulnerável, grotesco e visceral. Caracteriza-se por movimentos lentos e hiper-controlados, corpos pintados de branco, expressões faciais contorcidas e uma exploração de temas tabus como a morte, a sexualidade e o inconsciente.
Diferente de outras formas de dança que buscam a leveza e a ascensão, o Butô é terreno, pesado e muitas vezes focado em posições agachadas ou contorcidas. Não existe um “método” fixo; cada artista desenvolve sua própria linguagem a partir de uma profunda investigação interna. Os fundadores, Hijikata e Ohno, representam os dois pilares do Butô. Hijikata desenvolveu uma abordagem mais sistemática e coreografada, focada na transformação do corpo através de imagens viscerais e, por vezes, violentas. Kazuo Ohno, por outro lado, personificava a improvisação, a espontaneidade e uma espiritualidade que encontrava beleza na imperfeição e na fragilidade, continuando a dançar até depois dos 100 anos de idade. Juntos, eles criaram uma arte performática que chocou e fascinou o mundo, influenciando gerações de dançarinos e artistas que buscam a verdade no corpo que sofre, resiste e se transforma.

Os Fundadores da Escuridão
Tatsumi Hijikata
Tatsumi Hijikata é reconhecido como o verdadeiro fundador da dança butô, tendo concebido o “ankoku butô” no final dos anos 1950. Sua poética foi profundamente influenciada por suas experiências de infância camponesa, juventude na marginalidade urbana pós-guerra e pela leitura de pensadores europeus subversivos. Hijikata desenvolveu uma “dança do terrorismo”, um projeto político-artístico de insurreição física que buscava romper com os valores contemporâneos e instituir uma nova concepção de dança, absorvendo a marginalidade e o que era repudiado pela sociedade. O ápice de seu trabalho foi a performance solo de 1968, “Hijikata Tatsumi to Nihonjin – Nikutai no hanran” (A Rebelião do Corpo de Carne), que marcou uma mudança em sua investigação para o próprio corpo, realçando a materialidade e as fissuras do “nikutai” (corpo de carne) como epicentro de uma revolução (an)atômica. Seu projeto também buscou construir a identidade do corpo japonês, incorporando elementos nativistas e as imagens de sua região de Akita.
Kazuo Ohno
Kazuo Ohno é uma figura essencial na fundação e divulgação da dança butô. Embora Tatsumi Hijikata seja considerado o fundador filosófico e metodológico do butô, o projeto político-artístico de insurreição física de Hijikata não teria sido possível sem a presença de Ohno. Ele atuou tanto como inspiração poética original para Hijikata quanto como um intenso colaborador e o principal divulgador da dança butô em todo o mundo, muitos anos após sua criação. Juntamente com Hijikata, Ohno é um dos dois ícones da vanguarda experimental dos anos 1960 a quem se atribui a fundação da dança butô como um fenômeno artístico complexo. Apesar de terem construído percursos e propostas de dança distintas, suas poéticas se complementam e se negam reciprocamente, mostrando a natureza plural do butô desde seus primeiros esboços.
““As feridas do nosso corpo fecham e se curam, mas existem as feridas escondidas, aquelas do coração. Se você souber aceitá-las descobrirá a dor e o prazer que são impossíveis expressar com palavras. Você encontrará a realidade poética que só o corpo pode expressar.” – Kazuo Ohno
Galeria: O Corpo em Crise






Pesquisa e Estudos Acadêmicos
A natureza radical e a profundidade filosófica do Butô o tornam um campo rico para a pesquisa em dança, performance, antropologia e estudos japoneses. Explore os materiais abaixo para aprofundar sua compreensão.