
Prof. Dr. Ricardo Carlos Gomes
ricardo.gomes@ufop.edu.br
A trajetória do professor Ricardo Gomes é profundamente marcada por uma investigação contínua e dedicada ao Teatro-dança Clássico Indiano, com um foco especial e duradouro no Kathakali. Esta imersão, que define sua carreira, começou de forma prática ainda na década de 1990, com treinamentos intensivos na Itália junto a mestres como John Kalamandalam, e se consolidou como o eixo central de sua pesquisa acadêmica.
Seu interesse pelo tema culminou em dissertações que se tornaram referência na área. No mestrado pela UNIRIO, sua pesquisa “Kathakali e Stanislavski” já estabelecia um diálogo pioneiro entre as práticas de ator do Oriente e do Ocidente. Essa linha de investigação foi aprofundada em seu doutorado na Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, com a tese intitulada “Kathakali vesham – o aprendizado do ator Kathakali”, um estudo aprofundado sobre o rigoroso processo de formação nesta arte.
Como docente na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o professor Ricardo Gomes transformou essa pesquisa em prática pedagógica e em projetos de pesquisa que exploram o teatro intercultural. Projetos como “Arte do Ator entre Oriente e Ocidente” e o “Laboratório Intercultural de Atuação” utilizam os princípios técnicos e filosóficos do Kathakali como ferramentas para repensar a atuação cênica no Brasil. Sua atuação como coordenador do projeto “Arquivo Memória Intercultural das Artes da Cena no Brasil” (AMIA) é a consequência natural de décadas de trabalho, criando um repositório essencial para preservar e disseminar o conhecimento sobre esta e outras formas de arte interculturais.
A Pesquisa sobre Kathakali no Acervo

A contribuição do professor Ricardo Gomes para o Arquivo da Memória Intercultural das Artes da Cena (AMIA) foca na curadoria e análise de um valioso conjunto de documentos sobre o Kathakali, com o objetivo central de estabelecer um núcleo de referência robusto e academicamente denso sobre esta complexa arte cênica do estado de Kerala, na Índia. Este trabalho transcende a simples acumulação de dados, buscando ativamente construir pontes conceituais e práticas entre a tradição do Kathakali e o campo das artes cênicas no Brasil. Através de uma abordagem que une a pesquisa em performance e a arquivologia digital, sua curadoria fomenta um diálogo intercultural profundo, explorando os campos da etnocenologia para compreender a performance em seu contexto cultural de origem, e enfrentando os desafios da tradução cultural, questionando como os saberes, gestos e cosmologias de uma arte tão específica podem ser compreendidos e ressoar em um contexto global e lusófono. O acervo, portanto, não é apenas um repositório, mas um laboratório ativo para a investigação das dinâmicas entre o teatro, a antropologia e a memória.

Para alcançar essa profundidade, a pesquisa não se limita a catalogar registros de espetáculos. O esforço principal está em contextualizar a prática, desvendando as camadas de significado que a compõem. Isso é feito através da disponibilização de materiais raros, como vídeos de treinamento que detalham o rigoroso processo de formação do ator, incluindo o treinamento físico Kalarippayattu e o estudo dos mudras (gestos de mão) e da abhinaya (a arte da expressão facial). O acervo também inclui entrevistas com mestres que compartilham saberes sobre a mitologia hindu — base para os épicos Mahabharata e Ramayana, que formam o repertório clássico — e ensaios críticos que analisam a filosofia e a técnica por trás da elaborada maquiagem (aharyam) e dos figurinos.
Cada item do acervo é, portanto, uma peça em um mosaico maior, pensado para oferecer uma experiência de imersão completa. Ao organizar e interligar esses diferentes tipos de documentos, o professor Ricardo Gomes cria percursos de estudo que permitem ao usuário não apenas assistir a uma performance, mas compreender as bases que a sustentam. A curadoria transforma o acervo em um ambiente de aprendizado dinâmico, onde é possível analisar a dramaturgia sinestésica do Kathakali, na qual música, gesto, poesia e visualidade se fundem para contar uma história, oferecendo um contraponto valioso às tradições do teatro ocidental.
Dessa forma, o material reunido por ele oferece um mergulho profundo e multifacetado no universo do teatro-dançado indiano, consolidando um recurso fundamental para a comunidade acadêmica. Ao trazer esses documentos para o contexto do AMIA, a pesquisa fortalece o caráter intercultural do arquivo e enriquece o cenário das artes cênicas no Brasil. O acervo se torna um laboratório para a pesquisa em performance comparada, oferecendo novas perspectivas, inspirações e ferramentas críticas para artistas e estudiosos que buscam expandir as fronteiras de sua própria prática e conhecimento.